terça-feira, 21 de Julho de 2009

Em jeito de despedida


Ao contrário da maioria das pessoas, é nesta altura do ano que costumo fazer balanços, provavelmente por defeito profissional. Enquanto redijo relatórios, construo gráficos comparativos de sucesso/insucesso escolar e encho resmas de papelada que vão acabar no arquivo morto da escola para grande satisfação das traças, vou pensando no próximo ano lectivo e, obviamente, nas muitas outras coisas que me chamam.
Precisamente por estas razões resolvi apagar as luzes e fechar a porta do Quarto de Fadas. Não direi que é para sempre, porque sei que é uma palavra muito traidora, mas não faz parte das minhas intenções regressar, por isso, a todos os que me acompanharam, um grande obrigada.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

O último poema


Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

O Girassol


De oiro e negro se veste o girassol
Que símbolo mais fiel poderia eu encontrar?
Por mais que olhe para o sol
Metade da sua vida na sombra há-de passar.

José Juan Tablada

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

O embondeiro que sonhava pássaros


É enorme, mas a culpa é da Gi!

Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida. Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho. O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro.
Todas manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas. Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. Parecia eram gaiolas aladas, voláteis. Dentro delas, os pássaros esvoavam suas cores repentinas. À volta do vendedeiro, era uma nuvem de pios, tantos que faziam mexer as janelas:
Mãe, olha o homem dos passarinheiros!
E os meninos inundavam as ruas. As alegrias se intercambiavam: a gritaria das aves e o chilreio das crianças. O homem puxava de uma muska* e harmonicava sonâmbulas melodias. O mundo inteiro se fabulava.
Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos – aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro? Não, não e não. O negro que voltasse ao seu devido lugar. Contudo, os pássaros tão encantantes que são – insistiam os meninos. Os pais se agravavam: estava dito.
Mas aquela ordem pouco seria desempenhada. Mais que todos, um menino desobedecia, dedicando-se ao misterioso passarinheiro. Era Tiago, criança sonhadeira, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. Despertava cedo, colava-se aos vidros, aguardando a chegada do vendedor. O homem despontava e Tiago descia a escada, trinta degraus em cinco saltos. Descalço, atravessava o bairro, desaparecendo junto com a mancha da passarada. O sol findava e o menino sem regressar. Em casa de Tiago se poliam as lástimas:
Descalço, como eles.
O pai ambicionava o castigo. Só a brandura materna aliviava a chegada do miúdo, em plena noite. O pai reclamava nem que fosse esboço de explicação:
Foste a casa dele? Mas esse vagabundo tem casa?
A residência dele era um embondeiro, o vago buraco do tronco. Tiago contava: aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo.
– Vejam só o que o preto anda a meter na cabeça desta criança.
O pai se dirigia à esposa, encomendando-lhe as culpas. O menino prosseguia: é verdade, mãe. Aquela árvore é capaz de grandes tristezas. Os mais velhos dizem que o embondeiro, em desespero, se suicida por via das chamas. Sem ninguém pôr fogo. É verdade, mãe.
Disparate – suavizava a senhora.
E retirava o filho do alcance paterno. O homem então se decidia a sair, juntar as suas raivas com os demais colonos. No clube, eles todos se aclamavam: era preciso acabar com as visitas do passarinheiro. Que a medida não podia ser de morte matada, nem coisa que ofendesse a vista das senhoras e seus filhos. O remédio, enfim, se haveria de pensar.
No dia seguinte, o vendedor repetiu a sua alegre invasão. Afinal, os colonos ainda que hesitaram: aquele negro trazia aves de belezas jamais vistas. Ninguém podia resistir às suas cores, seus chilreios. Nem aquilo parecia coisa deste verídico mundo. O vendedor se anonimava, em humilde desaparecimento de si:
Esses são pássaros muito excelentes, desses com as asas todas de fora.
Os portugueses se interrogavam: onde desencantava ele tão maravilhosas criaturas? Onde, se eles tinham já desbravado os mais extensos matos?
O vendedor se segredava, respondendo um riso. Os senhores receavam as suas próprias suspeições – teria aquele negro direito a ingressar num mundo onde eles careciam de acesso? Mas logo se aprontavam a diminuir-lhe os méritos: o tipo dormia nas árvores, em plena passarada. Eles se igualam aos bichos silvestres, concluíam.
Fosse por desdenho dos grandes ou por glória dos pequenos, a verdade é que, aos poucos-poucos, o passarinheiro foi virando assunto do bairro do cimento. Sua presença foi enchendo durações, insuspeitos vazios. Conforme dele se comprava, as casas mais se repletavam de doces cantos. Aquela música se estranhava nos moradores, mostrando que aquele bairro não pertencia àquela terra. Afinal, os pássaros desautenticavam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça? O comerciante devia saber que seus passos descalços não cabiam naquelas ruas. Os brancos se inquietavam com aquela desobediência, acusando o tempo. Sentiam ciúmes do passado, a arrumação das criaturas pela sua aparência. O vendedor, assim sobremisso, adiantava o mundo de outras compreensões. Até os meninos, por graça de sua sedução, se esqueciam do comportamento. Eles se tornavam mais filhos da rua que da casa. O passarinheiro se adentrara mesmo nos devaneios deles:
Faz conta sou vosso tio.
As crianças emigravam de sua condição, desdobrando-se em outras felizes existências. E todos se familiavam, parentes aparentes.
Tio? Já se viu chamar de tio a um preto?
Os pais lhe queriam fechar o sonho, sua pequena e infinita alma. Surgiu o mando: a rua vos está proibida, vocês não saem mais. Correram-se as cortinas, as casas fecharam suas pálpebras.
Parecia a ordem já governava. Foi quando surgiram as ocorrências. Portas e janelas se abriam sozinhas, móveis apareciam revirados, gavetas trocadas.
Em casa dos Silvas:
Quem abriu este armário?
Ninguém, ninguém não tinha sido. O Silva maior se indignava: todos, na casa, sabiam que naquele móvel se guardavam as armas. Sem vestígios de força quem podia ser o arrombista? Dúvida do indignatário.
Em casa dos Peixotos:
Quem espalhou alpista na gaveta dos documentos?
O qual, ninguém, nenhum, nada. O Peixoto máximo advertia: vocês muito bem sabem que tipo de documentos tenho aí guardados. Invocava suas secretas funções, seus sigilosos assuntos. O alpisteiro que se denunciasse. Merda da passarada, resmungava.
No lar do presidente do município:
Quem abriu a porta dos pássaros?
Ninguém abrira. O governante, em desgoverno de si: ele tinha surpreendido uma ave dentro dentro do armário. Os sérios requerimentos municipais cheios de caganitas.
Vejam este: cagado mesmo na estampilha oficial.
No somado das ocorrências, um geral alvoroço se instalou no bairro. Os colonos se reuniram para labutar em decisão. Se juntaram em casa do pai de Tiago. O menino iludiu a cama, ficou na porta escutando as graves ameaças. Nem esperou escutar a sentença. Lançou-se pelo mato, rumo ao embondeiro. O velho lá estava ajeitando-se no calor de uma fogueira.
Eles vem aí, vêm-te buscar.
Tiago ofegava. O vendedor não se desordenou: que já sabia, estava à espera. O menino se esforçava, nunca aquele homem lhe tivera tanto valor.
Foge, ainda dá tempo.
Mas o vendedor se confortava, em sonolentidão. Sereno, entrou no tronco e ali se ademorou. Quando saiu já vinha engravatado, de fato mesungueiro**. De novo, se sentou, limpando as areias por baixo. Depois, ficou varandeando, retocando o horizonte.
Vai, menino. É noite.
Tiago deixou-se. Espreitava o passarinheiro, aguardando o seu gesto. Ao menos, o velho fosse como o rio: parado mas movente. Enquanto não. O vendedeiro se guardava mais em lenda que em realidade.
E porquê vestiste o fato?
Explicou: ele é que era natural, rebento daquela terra. Devia de saber receber os visitantes. Lhe competia o respeito, deveres de anfitrião.
Agora, você vai, volta na sua casa.
Tiago levantou-se, difícil de partir. Olhou a enorme árvore, conforme lhe pedisse protecção.
Está a ver a flor? – perguntou o velho.
E lembrou a lenda. Aquela flor era moradia dos espíritos. Quem que fizesse mal ao embondeiro seria perseguido até o fim da vida.
Barulhosos, os colonos foram chegando. Cercaram o lugar. O miúdo fugiu, escondeu-se ficou à espreita. Ele viu o passarinheiro levantar-se, saudando os visitantes. Logo procederam pancadas, chambocos, pontapés. O velho parecia nem sofrer, vegetável, não fora o sangue. Amarram-lhe os pulsos, empurraram-lhe no caminho escuro. Os colonos foram atrás deixando o menino sozinho com a noite. A criança se hesitava, passo atrás, passo adiante. Então, foi então: as flores do embondeiro tombaram, pareciam astros de feltro. No chão, suas brancas pétalas, uma a uma, se avermelharam.O menino, de pronto, se decidiu. Lançou-se nos matos, no encalço da comitiva. Ele seguia as vozes, se entendendo que levavam o passarinheiro para o calabouço. Quando se ensombrou por trás do muro, no próximo da prisão, Tiago sufocava. Valia a pena rezar? Se, em volta, o mundo se despojara das belezas. E, no céu, tal igual o embondeiro, já nenhuma estrela envaidecia.
A voz do passarinheiro lhe chegava, vinda de além-grades. Agora, podia ver o rosto de seu amigo, o quanto sangue lhe cobria. Interroguem o gajo, espremam-no bem. Era ordem dos colonos, antes de se retirarem. O guarda continenciou-se, obediente. Mas nem ele sabia que segredos devia arrancar do velho. Que raivas se comprovavam contra o vendedor ambulante? Agora, sozinho, o retrato do detido lhe parecia isento de suspeita.
Peço licença de tocar. É uma música da sua terra, patrão.
O passarinheiro ajeitou a harmónica, tentou soprar. Mas recuou da intenção com um esgar.
Me bateram muito-muito na boca. É muita pena, senão havia de tocar.
O polícia lhe desconfiou. A gaita-de-beiços foi lançada pela janela, caindo junto do esconderijo de Tiago. Ele apanhou o instrumento, juntou seus bocados. Aqueles pedaços lhe semelhavam sua lama, carecida de mão que lhe fizesse inteira. O menino se enroscou, aquecido em sua própria redondura. Enquanto embarcava no sono levou a muska à boca e tocou como se fizesse o seu embalo. Dentro, quem sabe, o passarinheiro escutasse aquele conforto?
Acordou num chilreino. Os pássaros! Mais de infinitos, cobriam toda a esquadra. Nem o mundo, em seu universal tamanho, era suficiente poleiro. Tiago se acercou da cela, vigiou o calabouço. As portas estavam abertas, a prisão deserta. O vendedor não deixara nem rastro, o lugar estava amnésico. Gritou pelo velho, responderam os pássaros.
Decidiu voltar à árvore. Outro paradeiro para ele já não existia. Nem rua nem casa: só o ventre do embondeiro. Enquanto caminhava, as aves lhe seguiam, em cortejo de piação, por cima do céu. Chegou à residência do passarinheiro, olhou o chão coberto de pétalas. Já vermelhas não estavam, regressadas ao branco originário. Entrou no tronco, guardou-se na distância de um tempo. Valia a pena esperar pelo velho? No certo, ele se esfumara, fugido dos brancos. No enquanto, ele voltou a soprar na muska. Foi-se embalando no ritmo, deixando de escutar o mundo lá fora. Se guardasse a devida atenção, ele teria notado a chegada das muitas vozes.
O sacana do preto está dentro da árvore.
Os passos da vingança cercavam o embondeiro, pisando as flores.
É o gajo mais a gaita. Toca, cabrão, que já danças!
As tochas chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. Dentro, o menino desatara num sonhos: seus cabelos figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. Tocavam as flores, as corolas se envolucravam: nasciam espantosos pássaros e soltavam-se, petalados, sobre a crista das chamas. As chamas? De onde chegavam elas, excedendo a lonjura do sonho? Foi quando Tiago sentiu a feridas das labaredas, a sedução da cinza. Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes.

* muska: nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.
** mesungueiro: de “mesungo”, homem branco.

Mia Couto, Cada Homem é Uma Raça

terça-feira, 19 de Maio de 2009

A gente se acostuma…


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.
A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.
A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colassanti

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Fábula revisitada


Era uma vez uma formiga que todo o santo dia carreava fardos e fardos de comida para abastecer o formigueiro. Quando chegava a noite, a pobre formiga exploradora, moidinha de trabalho, já nem alento sentia para uma amena cavaqueira com familiares e amigos. Adormecia logo.
O seu natural bom-feitio, e só isso, impedira-a de azedar o bom relacionamento com os outros. Mas não era feliz, e isso pressentia-se nos gestos bruscos e evasivos e naquela ruga de preocupação que tanto a marcava. No entanto, tinha reservas, bem escusadas, sobre o modo de ser e de viver de outras criaturas. Não sendo nada feia, desleixava muito os cuidados consigo e, apesar de ser esbelta e delicada na cintura - resultado de um exercício diário e continuado -, além de outros predicados que se lhe reconheciam, nunca arranjara noivo nem tempo para namorar. Era do género de considerar um desperdício de tempo ouvir música, ver teatro ou ler romances embora já tivesse ouvido ao mocho que quem lê romances vive mais; não compreendia, censurava até, por vezes, as que perdiam tempo no cabeleireiro e gastavam dinheiro em cremes de beleza e outros cosméticos.
Certa vez, travara conhecimento com uma cigarra muito simpática e comunicativa que tinha vindo morar para a vizinhança do formigueiro. Ao contrário da formiga, a cigarra vive com alegria e, sempre de bom humor, sabe tirar partido das coisas boas da vida. Pertence a uma família de criaturas que se dedica às artes, especificamente a música. A cigarra aproveita o calor do dia para cantar, insufla a pele do abdómen que ressoa como um tambor, e só pára ao entardecer. A cigarra entoava o seu cântico de louvor do Sol e à formiga este cantar dava-lhe alento e companhia, de tal forma que lhe parecia despender menos esforço e poupar energia. Se a cigarra, em alguma manhã mais nevoenta se ficava amodorrada ao sono, ou se se demorava um pouco mais na toilette matinal, logo a formiga estranhava e, sem se dar conta, entristecia. Claro que a formiga não se apercebia da causa da mudança de humor, e porque é que os fardos que acartava lhe pareciam menores mas muito mais pesados e fastidiosos os dias. Tinha preconceitos, adquiridos no tempo da escola, com o mestre La Fontaine. É verdade que o mestre, já com muita idade, tinha conceitos arcaicos e já desactualizados, que os trovadores e outros pequenos e médios artistas de music-hall não lhe perdoavam, mas a formiga não tivera outra escola, para além da mais árdua escola do trabalho.
Até que um dia a cigarra ficou afónica, isto porque um desarranjo intestinal, provocado pela ingestão de folhas quentes, a impedia de utilizar o seu instrumento musical. Aí, a formiga sentiu a sua falta e o alento que lhe proporcionava o cantar da cigarra. A dúvida entrou então no seu espírito e pensava: será que tenho andado enganada toda a vida? Afinal as cigarras também trabalhavam? E para os outros, com abnegação e generosidade? Foi infatigável, a formiga, no apoio à cigarra. Arranjava tempo para lhe levar uns caldinhos deveras reconfortantes e nunca a comidinha faltou à cabeceira da enferma.
Desde então, não consta que nenhuma cigarra tenha ficado desamparada no Inverno, nem na velhice. No entendimento da harmonia desta verdade universal, Formigas e Cigarras foram felizes para sempre.

Hipólito Clemente

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Carta dum contratado


Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas
Compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto
De lamento em lamento
De farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes
As palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te amor

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

António Jacinto

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Neve preta?


Falar de neve em Junho mostra uma lamentável falta de sentido de oportunidade. Mas, tal como debaixo dos pés se levantam os trabalhos, também o acaso dos encontros pode inverter a ordem das estações e trazer o inverno para o pino do verão, e fazer passar por nós um terrível frio que nenhum agasalho será capaz de vencer. Porque, não me cansarei nunca de o dizer, é preciso muito cuidado com as crianças (...).
E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são as crianças? Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? (...) Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros do acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se eu não tenho razões para insistir: é preciso muito cuidado com as crianças. Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob a rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: "Façam um desenho sobre o Natal (...)". Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os reis magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus (...). De repente. Ah! Mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é nem melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada: o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca, o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
"Porquê?", pergunta a professora em voz alta à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: "Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu."
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?

José Saramago, Deste mundo e do outro

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Hugo Pratt e Sandokan

(clique na imagem para aumentar)

Sandokan, o Tigre de Mompracem, não me seduziu nas descrições de Emílio Salgari nem na figura do actor Kabir Bedi. Mas quando li esta notícia no Público de sábado passado fiquei com a certeza de que vou mudar de opinião. Já estou a contar o tempo que falta para ter o livro nas mãos!

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Medo da eternidade


Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas.

Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Posso escrever os versos...



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe."

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o vento cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive em meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora seja esta a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Qual é o livro que andam a ler?


"Um grande livro deve deixá-lo com muitas experiências e algo exausto. Deverá viver diversas vidas enquanto o lê."

William Styron

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Dia da Terra

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Sabemos hoje que a Terra é o nosso lar, a nossa casa comum, a nossa pátria. É o único habitat aprazível, com os seus rios, as suas montanhas, as suas flores, os seus animais, a diversidade das suas espécies, a diversidade das nossas culturas, a diversidade dos humanos. Estamos em nossa casa.
Pertencemos no entanto, a um tempo (...) em que, como nunca até hoje, as ameaças convergem sobre o nosso planeta. O mais trágico, ou cómico, é que todas estas novas ameaças (desastres ecológicos, aniquilamento nuclear, manipulações tecnocientíficas, etc.) provêm dos próprios desenvolvimentos da nossa civilização. O problema de dominar o planeta já não tem o mínimo sentido. A Terra não nos pertence, nós é que lhe pertencemos. Trata-se, actualmente, de controlar o desenvolvimento descontrolado da nossa era planetária. A Terra-Pátria está em perigo. Estamos em perigo, e o inimigo, aprendemo-lo finalmente hoje, não é outro senão nós próprios.

Edgar Morin, Os problemas do fim do século, 1990

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Definição


“Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto mas, se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada."

Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Mankind is no Island

O Tropfest, o maior festival de curtas-metragens do mundo, começou há dezassete anos em Sydney e, no ano passado, teve a sua primeira edição em Nova Iorque. O vencedor foi este filme totalmente realizado com umtelemóvel. O seu orçamento foi de 40 dólares!



O Quarto de Fadas fez ontem um ano, e eu não teria dado por isso se não fosse o Carlos, que alertou o blogobairro para isso com um post da maior simpatia possível. Para ele e para os que me enviaram mensagens de parabéns, os meus agradecimentos.

terça-feira, 7 de Abril de 2009

Cronobiograma feminino


Até aos 5 anos - A mulher não faz a mínima ideia de quem é.

Dos 5 aos 10 anos - Sabe que é diferente dos rapazes, mas não percebe porquê.

Dos 10 aos 25 anos - Sabe exactamente porque é que é diferente, e tira proveito disso.

Dos 25 aos 30 anos - Nesta fase formam-se 5 grupos distintos:

G1: As que casaram por dinheiro.
G2: As que casaram por amor.
G3: As que não casaram.
G4: As que simplesmente casaram.
G5: As inteligentes.

G1: Descobrem que o dinheiro não é tudo na vida e sentem falta de uma paixão.
G2: Descobrem que a paixão não é tudo na vida e sentem falta do dinheiro.
G3: Descobrem que o dinheiro e a paixão não fazem falta, o que interessa mesmo é um homem.
G4: Não percebem porque é que casaram.
G5: Descobrem que ter inteligência não é tudo na vida.

Dos 30 aos 35 anos - Sabe exactamente onde é que errou e pinta o cabelo de loiro. Vai para o ginásio.

Dos 35 aos 40 anos - Procura ajuda espiritual.

Dos 40 aos 45 anos - Abandona a ajuda espiritual e procura ajuda médica, com psicólogos e cirurgiões plásticos.

Dos 45 aos 50 anos - Graças aos cirurgiões o rabo e barriga voltaram ao normal, o peito ficou melhor do que era e apaixona-se pelo psicólogo.

Depois dos 50 anos - FINALMENTE DESCOBRE-SE, ACEITA-SE E COMEÇA A VIVER!!!
...Mas então aparece a osteoporose e o reumatismo, e lixa tudo.

(Mandado por e-mail por uma mulher bonita, inteligente e com mais de 50 anos)

domingo, 29 de Março de 2009

Belo belo


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milénios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira

terça-feira, 24 de Março de 2009

Parábola do professor

Escola de Atenas - Rafael

Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os dizendo:

Em verdade vos digo, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...

Pedro interrompeu: Temos que aprender isso de cor?
André disse: Temos que copiá-lo para o caderno?
Tiago perguntou: Vamos ter teste sobre isso?
Filipe lamentou-se: Não trouxe o papiro-diário.
Bartolomeu quis saber: Temos de tirar apontamentos?
João levantou a mão: Posso ir à casa de banho?
Judas exclamou: Para que é que serve isto tudo?
Tomé inquietou-se: Há fórmulas, vamos resolver problemas?
Tadeu reclamou: Mas porque é que não nos dás a sebenta e pronto!?
Mateus queixou-se: eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus cretinos, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:

Onde está a tua planificação? Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didáctica mediatizada? E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional? Quais são as tuas expectativas de sucesso? Tendes para a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão? Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios? Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem? Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais? Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes?
Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, praxeológico e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e metadisciplinares?

Caifás, o pior de todos, disse a Jesus:
Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não lhe falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se lhe estraguem as estatísticas do sucesso. Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada. E vê lá se reprovas alguém! Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva.

... E Jesus pediu a reforma antecipada aos trinta e três anos...

terça-feira, 17 de Março de 2009

A árvore dos desejos


Era uma vez um homem que enquanto viajava entrou acidentalmente no paraíso. Neste paraíso, existiam árvores dos desejos. Bastava sentarmo-nos debaixo delas, pedirmos um desejo e imediatamente o desejo tornava-se realidade - não havia intervalo entre o desejo e sua realização.
O homem estava cansado e adormeceu à sombra da árvore-dos-desejos. Quando despertou, estava com muita fome, e pensou:
- Estou com tanta fome, quem me dera encontrar qualquer coisa para comer.
E imediatamente apareceu comida vinda do nada, simplesmente uma refeição deliciosa flutuando no ar.
Ele estava tão faminto que não quis saber de onde é que a comida viera (quando se está com fome, não se é filósofo!). Começou a comer imediatamente, a comida estava deliciosa... Depois, tendo saciado a fome o homem olhou à sua volta...
Outro pensamento surgiu na sua mente:
- Se ao menos pudesse ter algo para beber...
E como não há proibições no paraíso, imediatamente apareceu um excelente vinho. Bebendo o vinho descontraidamente aproveitando a brisa fresca do paraíso, sob a sombra da árvore, começou a pensar:
- O que está a acontecer? O que se passa? Estarei a sonhar ou existem espíritos à minha volta ?...
E os espíritos apareceram. E eram ferozes, horríveis, hediondos.
O homem começou a tremer e mais um pensamento surgiu na sua mente:
- Agora vou ser assassinado, com certeza!
E foi assassinado.

Autor desconhecido

terça-feira, 10 de Março de 2009

Blueberry Girl



Damas da luz e damas das trevas, damas de tudo o mais,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Primeiro que tudo, senhoras,
tende a bondade de poupá-la a escorregadelas e tropeções aos dezasseis,
permiti que se mantenha desperta e ajuizada, livre de pesadelos aos três,
de maridos que lhe entristeçam o olhar aos trinta,
de dias tristes aos catorze,
de falsas amigas aos quinze.
Permiti que tenha dias de coragem e de verdade.
Permiti que vá a lugares a que nunca nos permitiram que fôssemos
e que tenha sempre alegria na sua juventude.
Damas da graça e damas da mercê, damas de poder misericordioso,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Concedei-lhe a vossa pureza de visão.
As palavras podem ser inquietantes,
as pessoas podem ser complexas
e os meios pouco claros.
Concedei-lhe a sabedoria de escolher o caminho direito,
livre de maldade e medo,
permiti que conte histórias e dance à chuva,
que dê cambalhotas, role e corra,
que as suas alegrias sejam tão altas como as suas tristezas profundas.
Permiti que cresça como uma erva ao sol.
Damas do paradoxo, damas do equilíbrio, damas das sombras que caem,
esta é uma prece por uma blueberry girl.
Ajudai-a a ajudar-se a si própria,
ajudai-a a levantar-se,
ajudai-a a perder-se e a encontrar-se,
ensinai-a que temos o tamanho dos nossos sonhos,
ensinai-a que a fortuna é cega,
que a verdade é uma coisa que ela terá de encontrar por si própria,
preciosa e rara como uma pérola.
Concedei todos estes dons e um pouco mais ainda a uma blueberry girl.

Neil Gaiman
(tradução livre)

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Outra Vida



Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
De elefantes, baleias, cais e canções
Na preguiça do panda, na destreza do lince
Vou abrir a Pandora onde Deus não existe
Entre tudo e nada, saber quem sou

Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
De golfinhos e águias, do silêncio das águas
Regressado aos sentidos e à razão dos bichos
Dos espaços perdidos, na asa de condor
No fundo do mar, saber quem sou

Quero ser noutra vida mensageiro de emoções
Porta-voz de ondas, tradutor de ilusões
Ser menos ainda que um pequeno carreiro
Descobrir o mistério do Universo inteiro
Emprestar a vida, descobrir quem sou

Letra e música de João Afonso Lima

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Carnaval de Veneza

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O único Carnaval de que eu gosto.

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Foi para ti...


Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade


quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Mudar uma lâmpada...


Quantas pessoas são necessárias para mudar uma lâmpada?

Depende do tipo de pessoa:

Tias?
Duas: Uma chama o electricista e a outra prepara as bebidas.

Psicólogos?
Apenas um, mas a lâmpada PRECISA DE QUERER ser mudada.

Loiras?
Cinco: Uma para segurar a lâmpada e outras quatro para girarem a cadeira.

Consultores?
Dois... Um abandona sempre o trabalho a meio do projecto.

Bêbados?
Um, só para segurar a lâmpada, enquanto o tecto vai rodando.

Informáticos?
Mudar para quê? Não há qualquer problema com a lâmpada velha, porque nos testes aqui no escritório ela funcionava bem.

Activistas gays?
Nenhum. A lâmpada não precisa de mudar para ser aceite pela sociedade.

Cantores Românticos?
Dois: Um muda a lâmpada e o outro escreve uma canção sobre os bons tempos da lâmpada antiga...

Machões?
Nenhum: Macho não tem medo do escuro.

Americanos?
Só um: Ele segura a lâmpada e o mundo gira ao seu redor.

Mulher?
Só ela! Sózinha!! Porque ninguém, dentro desta casa sabe mudar uma lâmpada! São um bando de IMPRESTÁVEIS!!! Eles nem percebem que a lâmpada se fundiu! Eles podem ficar em casa no escuro durante três dias antes de perceberem que a porcaria da lâmpada se queimou! E quando notarem, vão passar mais cinco dias à espera que EU a mude, porque acham que eu sou ESCRAVA deles!!! E quando eles perceberem que eu não vou mudar a lâmpada, eles ainda vão ficar mais dois dias no escuro porque não sabem que as lâmpadas novas estão na porcaria da despensa! E se, por algum milagre, eles encontrarem as lâmpadas novas, vão arrastar o sofá da sala até ao lugar onde está a lâmpada fundida e vão riscar o chão todo, porque são INCAPAZES de saber onde está guardado o escadote! É inútil esperar que eles mudem a lâmpada, então sou eu mesma quem vai mudá-la! E como eu sou uma mulher independente, vou lá e mudo!... E SAIAM DA MINHA FRENTE!!!

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Citação


"O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem que pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo."

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento